quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O Rock está virando um sem-teto

“O Público do Rock n’ Roll é um público muito infiel”
Cláudio Nugoli,
Ex-administrador do falido Butiquim Blues


Fotos: Naiana Mendonça
Por João Paulo Cabral

18 de Setembro – mais uma noite Cultcha! A terceira do ano em uma nova casa de show. A cada novo endereço, uma nova correria. Definitivamente, Taguatinga não vai bem no quesito hospitalar. Não estou falando do problema de Saúde do DF, embora esse também mereça a total urgência, falo da Cultura. Que além de sua importância geral, é essencial para as casas hospitaleiras. Aquelas que recebem semanalmente, dezenas de pacientes com insuficiência nervosa e carência de corrente elétrica.

Estas, Ao contrário das clínicas e hospitais, estão minguando com a falta de freqüentadores. Pois está se tornando cada vez mais difícil atrair roqueiros para dentro das casas de show. Já não bastasse o Botiquim Blues ter jogado a toalha, o bar Água de Beber, última residência do Cultcha, acaba de ser passado adiante. Então, antes que só reste como opção para o Coletivo entrar na fila do PAC habitação da Dilma, ele foi se assentar no Blues pub. Celebremos então, enquanto a paixão pelo Rock n’ Roll e o déficit no final do mês agüenta.

Assim como no ultimo show, somente duas bandas se apresentaram na noite. Michel Aleixo, guitarra/vocal do Lacunna, explica que essa decisão foi tomada por questão de logística e deverá ditar a moda da casa por um tempo. “É melhor assim, termina mais cedo e não rola stress de passagem de som, nem de saturação das caixas.” O que significa que a outra parte ficará encarregada pelos discotequeiros de plantão. Dessa vez, com os trutas do Enema Noise.

A noite de reconhecimento no novo local foi um flagrante dessa crise. Tranqüila e familiar, a maioria presente era composta de amigos próximos.Ainda que o clima presente fosse de ressaca do Porão do Rock e baixa umidade, até agora não inventaram nada melhor para matar o tédio do que um som pauleira . Uma das poucas bandas de coletivos que não foi classificada para o Porão, o Valdez não deixou por menos e chamou outros capangas das antigas, para juntos se vingarem. Uma banda dos confins dos estúdios, o Succulent Fly, para lançar seu CD – “Flying Again”.


A hora marcada já estava batendo, quando Sérgio Luz chega com os pratos nas costas e as baquetas nas mãos, parecendo uma tartaruga ninja – “SANTA TARTARUGA!”, soltou Michel – AhaiuHAIUhIHAUa! Enquanto os rapazes se preparavam, Marcelo Melo, batera do Enema Noise, adianta que o CD da banda está quase no ponto de sair do forno de seu estúdio. E que o grupo resolveu deixar de lado o dee lay no vocal. Depois tantos problemas em ajustá-lo, o estopim foi o show do Porão. “Foi meio paia, a gente resolveu extingui-lo... talvez tentemos um reverb futuramente”, diz ele. “Queremos fazer algo mais rock agora, a gente usava isso desde quando éramos mais experimentais.”

De repente, o alerta Valdez toca (introdução de Mob Dick)! É hora de entrar. O Blues pub é bem customizado, semelhante ao Botiquim Blues. Area para fumantes, para jogos e para o som. “Aqui é um inferninho, um puteirinho, é sujo”, diz Nanreri, artesã e mercante Cultcha. “Apesar de 90% dos meninos não gostarem daqui, eu gosto.” Confesso que tentei imaginar o provável motivo dos predicados “sujo” e “inferninho”. ~Mas não consegui assimilar o por quê de "puteirinho".

A acústica do lugar lembra algo como tocar dentro de um quarto ou num CA da UnB. Não há nada para absorver o som ou espaço para ele se dissipar. A pancada vinda dos alto-falantes fica ricocheteando entre paredes e atinge em cheio quem está na linha de frente e nas trincheiras próximas ao palco. Com efeito, depois de certo tempo, o eco nos ouvidos se satura e é aconselhável sair um pouco de perto, ir ao banheiro, ou pedir outra. No entanto, apesar de ser prejudicial, dependendo de como a energia é empregada, da agitação ou do peso, o recinto corre o risco de virar um corredor polonês.


A apresentação do Valdez rolou em ritmo de ensaio. Foi mais uma exibição para exercitar os calos e prevenir o acúmulo de sebo das cordas, do que poderia se esperar de uma vingança. Soou mais como um “quem ri por ultimo, ri melhor”. “Esse show só estamos fazendo de chato que somos. O batera está com febre, quase morrendo, e o baixista resolveu assumir que é gay”, esculhamba Diego. Os caras estavam tão descontraídos e a vontade, que nem fizeram repertório. “Iae galera, vocês querem ouvir qual?” Eu aponto para um repertório dos Beatles pregado na parede, que há muito deveria estar ali. “A hard days night?”, pergunta ele. “Aquela lá do Everaldo”, alguém responde... “Essa eu dedico à minha avó lá de Pernambuco”, se empolga Gega.


Enquanto o pau comia, fui saber por que as casas de rock estão fechando uma atrás da outra. Segundo Nugoli, ex-administrador do falido Botiquim Blues, a despesa de uma casa para manter aluguel, funcionários, estrutura e o estoque de álcool em dia, no final do mês, geralmente ultrapassa ou zera o arrecadamento do caixa. “Roqueiros não tem grana bixo, o que dá dinheiro é Axé, Sertanejo... só fazemos essas coisas porque gostamos e por prazer”, desabafa Nugoli. “Os maiores responsáveis pela derrota das casas de rock são os próprios roqueiros, o pessoal não consome, não entra, prefere ficar do lado de fora.”

Ele explica que o público de rock especialmente, é subdividido em muitas outras tribos. E que nem sempre, estas são simpáticas aos gêneros musicais ou estilo de outras tribos. Para ele, essa divisão acaba por subtrair ainda mais o público pagante e o lucro dos bares. “Acho que estamos em um dos piores períodos.” Esse fato é ainda mais dramático, se aplicado aos shows com bandas autorais, já que o público se reduz a basicamente a amigos e conhecidos, diz ele. “O primeiro do Cultcha bombou, o segundo também, mas o terceiro e o quarto, deu quase nada...”, conta o
antigo anfitrião do cafofo que acolheu as noites mais insanas do Cultcha.


Entretanto, Nugoli não é pessimista quanto ao futuro. Para ele, dependendo do resultado das eleições a coisa pode mudar, mas o primordial, é que a sociedade cobre atitude de seus representantes. “Infelizmente nosso administrador não gosta de rock, daí foram fazer a seletiva no America [Rock Club] e deu aquela confusão”, diz ele. “Na seletiva de Planaltina foi diferente, eles tiveram o apoio da administração e deu tudo certo.” Além de sediar a seletiva, o Coletivo D’Armas, de Planaltina, também fez seu festival de lançamento em parceria com a gerência de cultura local. “O Estado é nosso, o governo é nosso”, enfatiza João Angelini, vocal do Gilbertos Comem Bacon. “É dever dele, é lei, a gente tem que parar com esse negócio de que ‘a administração que tem que fazer. ’”

Pronta para o segundo round, a galera foi chegando junto. Grande parte curiosa para saber do que se tratava e da onde vinha o grupo. “Somos de dentro do estúdio, nosso show é nosso ensaio”, explica Anderson, guitarra/vocal, fundador da banda, e critica. “A gente não consegue entrar na cena, as panelas dominam.” Talvez isso explique o fato dos renegados terem lançado na ocasião, um CD produzido em 2007. E de desdenharem o fato de nunca terem conseguido participar de uma seletiva para o Porão, ou mesmo, uma agenda agitada pelos pubs Brasília “O dia mais bonito da minha vida foi o dia que eu vi os donos do Porão saírem de algemas, sendo carregados pela PF”, diz ele soltando uma gargalhada sinistra. Ele se refere à Operação Mecenas, de 2007, em que a PF prendeu os donos da G4, empresa de consultoria que então organizava o Porão do Rock.

O Power trio de veteranos – na média dos 30 e poucos anos e voando desde 1990 no DF– faz um som tão primário e espontâneo, quanto feito por adolescentes. O show foi bem empolgante, as influencias de Mudhoney, Nirvana, Sex Pistols e Green Day – da época do Dookie – são facilmente identificáveis. Assim como o escárnio e o sarcasmo presente nas letras. Mesmo cantadas em inglês, não é preciso entendê-las para sacar o teor. Quando não é possível, eles ajudam traduzindo. “Eu te odeio há muito tempo, desde que te conheci, não suporto sua cara, nunca mais volte aqui”, declara Anderson, a letra de Kick in the Butt.


E assim foi vivido mais um episódio do Coletivo Cultcha! Ao final de uma noite underground cheia de moscas zombeteiras, desordem proferida, harakiri vingativo, anarquia em copo d’agua e chilique histérico, eu já estava cheio disso tudo. Não agüentava mais bambear ao som de White Stripes. Então, quando me preparava para partir, pressionado por meus amigos companheiros de viagem, achando que a noite nada mais tinha para me oferecer, flagro Bruno Nirvana quase beijando a lona. “III GOTTCHA KICKING Fucccking outthe JAM!”, murmura seu leão interior, fazendo cara de Slote.

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