quarta-feira, 15 de setembro de 2010

RESENHA - COLÓQUIOS FLÁCIDOS PARA ACALENTAR BOVINOS


por Davi Kaus

É a verdade contida no gozo de fazer algo real e o real só é real quando você o sente. É cabo P-10 plugado na artéria.

Colóquios Flácidos para Acalentar Bovinos, primeiro lançamento oficial da banda Valdez, é complexo na sua simplicidade. Porque é fácil fazer três riffs e gritar no refrão (vide as zilhões de cópias mal feitas do Nirvana surgidas nos anos 90), pôr uma letra meia-boca deprê e cantar fazendo cara de cachorrinho que caiu do caminhão de mudança. Mas fazer uma música como "Everaldo Maximino terá a sua vingança" é outra história... São três riffs, grito no refrão e uma letra deprê sobre abandono (?), e é uma música monstra!

O disco é permeado por riffs pegajosos de muito bom gosto, como em "Apocalipse girl" (a música que, junto com "Adolescentes da Manchúria", compõe o momento casal agarradinho do EP. Sex on the street, young lovers!) e em "Mininova" (sensibilidade a la Nirvana: bruta e bêbada).
"Rich girls go to New York, poor girls go to Feira dos Goianos" (nome em referência safada à "Good girls go to heaven, bad girls go to Amsterdam", da banda River Phoenix. Espertos esses meninos, não?) é uma travessia no inferno. E o inferno fica na Hélio Prates (avenida que liga Taguatinga à Ceilândia) às duas horas da manhã. E quando você acha que vai ser morto pela polícia ou por um junkie com crise de abstinência, aparece uma menina linda que te chama pruma festa regada a cerva barata e groovie a la James Brown, onde você encontra a polícia e o junkie na pista de dança... Dor e delícias de ser um fuleiro da porra.

A qualidade da gravação ficou muito boa, concebida no Macaco Malvado - estúdio do produtor Gustavo Bill - e refinada pelo Gustavo Vasquez no estúdio Rock Lab. A parceria Bill-Valdez garantiu detalhes inestimáveis como pianos, efeitos de voz, lap steel, o começo carniceiro de "Rich girls...". E os timbres dos instrumentos em geral estão intimamente integrados ao tipo de som do Valdez.



A arte do EP, feita por Maurenilson Freire e Andreia Cristinne Aguiar (que também compõe os panfletos dos eventos do Coletivo Cultcha, muito bons por sinal), saiu bem legal - psicodelia pós-apocalíptica pré-ressaca (se é que vocês me entendem) - com a ótima foto do encarte e a referência ao 4º. Valdez - a persona Santo Sudário (mais conhecido como Jack Estripador da Cuequinha Branca de Nuvem).


Ron Asheton ficaria feliz com esse EP.

Baixe o EP aqui

ENTREVISTA




CC: Fale um pouco sobre a história da banda, tempo de formação etc.

Diego: A banda começa em 1997, na 5ª série turma F, da Escola Classe 40 de Taguatinga, quando conheço o Everaldo, e ele garante a minha proteção dos valentões do colégio em troca do empréstimo de alguns números da revista Top Rock do meu irmão mais velho. Aí um dia a gente resolve montar uma banda, mas como não sabiamos nem bater palmas em tempos regulares deixamos a idéia pra lá. Anos depois quando começo a aprender meus primeiros acordes na guitarra, então convenço o Everaldo a montar uma banda comigo e o Tiago (ex-River Phoenix e Leda) na bateria. Essa banda se chamava T.H.C (Terror no Hospital de Ceilândia) e durou um show de 5 minutos onde tocamos três covers do Ratos de Porão e "Policia" na versão do Sepultura. Depois disso veio o Revolver que mudou de nome para Wolfgang, e era uma coisa mais punk rock rasteiro. Devido a problemas com baterista, a gente conhece o Sérgio e aí realmente as coisas passaram a se encaixar perfeitamente. Mudamos o nome, amadurecemos mais o som e cá estamos nós!

CC: Em relação às influências musicais da banda, quais vocês acham que as pessoas notam com mais facilidade e quais estão mais camufladas?

Sergio: Acho que a influencia de rock de garagem é a mais latente, mas tem outras, muitas outras...

Diego: Acho que basicamente deixamos transparecer no nosso som influências de coisas como Nirvana, Queens of The Stone Age, Black Flag e Stooges. Mas particulamente eu sou um cara que ama tanto os Beatles quanto o Ratos de Porão. Acho isso positivo pois pode abrir um leque maior de experimentações no futuro pra gente. Como Sérgio disse existe muita coisa...

CC: Qual a visão da banda sobre shows? Contem as histórias de shows bons, ruins...

Sergio: Hum, é a forma das bandas soltarem seus demonios. Pelo menos é mais ou menos isso que rola quando subimos nos palcos. É o momento de abrir o terceiro olho, ui! Hohoho...
O shows em sua maioria tem sido muito bons. Só não é totalmente lindo quando nos deparamos com equipamentos muuuito ruins, que daí acaba comprometendo o lance. Mas no geral é "search and destroy".

Diego: Eu acho que o nosso pior show foi no Grito Rock Cuiabá em 2009. Tocamos mal e nervosos. Foi uma merda. Mas a viagem em si foi muito boa, pois serviu para abrir nossos horizontes sobre muito coisa que tava rolando e não tínhamos noção. Agora o show que eu mais gostei nosso foi na Seletiva do Porão do Rock esse ano. Pelo fato do lugar ser pequeno e estar completamente lotado. Realizou um fetiche meu de tocar em "inferninhos", um lance tipo Seatle saca? achei lindo esse dia.

CC: Sobre as letras das músicas, teria alguma que vocês destacariam? O que vocês acham sobre qualidade e mensagem nas letras? Tem que ter? Tanto faz?

Diego: Há um tempo atrás eu achava que qualquer coisa desde que ficasse legal sonoramente bastava, devido há um lance que o Kurt Cobain sempre falava que a "música vem antes". Bom eu mudei em relação a isso. Pra mim as letras são uma maneira de limpar meu organismo de coisas que sinto. As letras do "Colóquios Flácidos Para Acalentar Bovinos", foram feitas num momento de agressão muito intenso, por isso algumas soam pesadas. Porém na Estéreo Combustão, que foi uma das últimas a serem composta junto com Apocalipse Girl, começa a surgi uma certa esperança e excitação pelo fato de estar vivo. Enfim, resumindo se deve ter um sentido ou não, depende! O interessante mesmo é as interpretações que cada um dá.

CC: Como é manter na ativa uma banda de rock independente, conciliar com os outros projetos - pessoais, trabalho, família?

Sérgio: É foda. Hehehe... Mas a gente tenta, porque a música é nossa grande namorada. Ela é uma puta, mas a amamos!

Diego: Hehe nada a acrescentar!

6) Por que fazer música?

Diego: Porque não?

Sergio: Ah, é nossa maior satisfação, daí... é natural, faz bem, liberamos endorfina, domamos nossos demonios, enfim, fazer música é um presente. Romantico, não?! Hehehe...

7) Mandem um recado pros leitores do blog!

Diego: Mark Arm falou isso uma vez e achei genial: Sejam honestos, trabalhem bastante e fiquem chapados!

Sergio: Rooock!!!


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