segunda-feira, 31 de maio de 2010

2ª NOITE FORA DO EIXO COLETIVO CULTCHA


“Bem pensamos em nós, os bem-aventurados, e esquecemos-nos dos que nos ajudam. Importantes são os que fazem à estória dos esquecidos. Doravante fosse eu numa cadeira de rodas, empurrado pelo susto de ter que escrever palavras que não matam, mas que alimentam as cabeças inócuas.” – Alexandre Branco


Texto: Michel Aleixo
Fotos: Andreia Cristinne Aguiar


E assim foi, a 2ª Noite Fora do Eixo do coletivo mais iconoclasta do Distrito Federal. Sexta-feira, 21 de maio, a marquise anunciava Plástico Lunar de Sergipe, Dínamo Z de Taguatinga e a Biônicos de Samambaia. A casa não estava muito cheia, graças a uma grande concorrência: Black Drawing Chalks no Velvet Pub; Festival Martelada no Gates; e Mudhoney na Virada Cultural. De qualquer forma, o Cultcha cuida dos seus. No grande esquema do Fora do Eixo, estamos nas trincheiras, carregando caixas, promovendo diversão a baixo custo, os glóbulos vermelhos do grande sistema. Nessa pirâmide da Avon somos os pilares e isso não é ruim. Nada se sustenta sem os pilares, ou no caso de Brasília, os pilotis. A história vai absolver a todos nós.

A casamata foi mais uma vez o Água de Beber. O pub outrora se destinava apenas a programinhas lights como a trinca voz, violão e banquinho, mas já recebe o rock valvulado do Cultcha pela segunda vez. Antes do ato de abertura, Kozak discotecava seus petardos shoegazers num volume ácido. A todos próximos aos alto-falantes, restaram caixas cranianas avariadas. Como de costume, Davi Kyuss, o strip rocker mais infame da região, se desdobrava para promover som de qualidade satisfatória aos músicos. Tarefa nunca fácil graças à acústica do lugar. Feito o possível, é hora dos Biônicos.


A banda é um exemplo perfeito da geração de garotos que comprou a ideia do Fora do Eixo. Os caras em parceria com dois outros grupos da Samambaia criaram o Coletivo Insônia que já está na ativa e cheio de pretensões. “Participamos dos debates e palestras promovidos pelo Esquina no Museu da República na época do Grito Rock e decidimos fazer um coletivo”, explica o guitarrista Cristian. “Mas o objetivo principal é trazer algo novo para a Samambaia, tocamos mais fora do que lá”, afirma Sanderson, baixista. “Não havia cena. De onde viemos ninguém conhecia a gente, não tem muito shows por lá. Então a ideia é movimentar essas bandas lá dentro. Já temos nosso espaço e tudo mais, firmamos parcerias com estúdio. Tinha gente que nem sabia que tinha estúdio em Samambaia. Não nos importamos se vamos entrar no FDE ou não, o que vale é fermentar a cena da cidade”, completa.


Ao vivo a banda é afiada. Um pop rock de verso-refrãogrudento-verso, com mudanças de dinâmicas num estilo weezer bem adocicado. No gran finale, o guitarrista jogou sua Giannini Gemini no chão. Gostei. Só guitarras com cicatrizes têm personalidade. O Biônicos está gravando seu primeiro disco com o pequeno mestre Rafael Lamin. Se ele colocar um pouco de sua sujeira nata na produção, o disco dos caras torna-se promissor.


Nos menores Estados escondem-se os melhores venenos? Pode apostar Paulo Ricardo. Diretamente de Sergipe, a Plástico Lunar com seus teclados, setentismo e lisergia entrou para os anais dos melhores shows do Coletivo Cultcha. Estamos falando de cinco caras que tiveram o público na mão. Imagine estar na Máquina Voadora do Ronnie Von, com o Led Zeppelin e os Mutantes. Eu imaginei. “Alguém me arruma uma cerva aí?” pediu o vocalista Daniel Torres, que foi prontamente atendido e toda a manobra ocorreu com a música em andamento. Pra mim o most valuable player foi o cãozinho dos teclados Leo Airplane, que comandou com maestria umas modulações acachapantes. Era uma roleta russa de umas três oitavas pra cima e pra baixo primo. Num derradeiro momento, quase me deitei no chão para desfrutar de um sunn bathing* maroto. Em poucas palavras, o show da Plástico Lunar foi um interstellar overdrive do agreste.

* (do original em inglês sun bathing = banho de sol. O outro ‘n’ remete a gíria interna entre os seguidores da banda de drone metal americana Sunn O))). O termo surgiu da prática de deitar-se no chão nas apresentações ao vivo do grupo, para sentir as vibrações dos acordes em volumes estratosféricos e tons baixíssimos executados pelo Sunn).


“O show foi do caralho! Ainda estamos trabalhando no primeiro disco, então tocamos umas músicas novas e foi tudo melhor impossível”, resume Daniel. Os caras estavam em tournée e passaram por quase todos os festivais da Abrafin. Rock, ácido e urubus. Eles acabaram de criar o primeiro ponto Fora do Eixo de Sergipe, o Virote Coletivo. “Virote é uma gíria lá de Aracaju que significa passar a noite em claro. Ficar de virote, passar a noite tomando cachaça, por exemplo”, explica o baixista Plástico Jr. “Estamos apostando no FDE. Antes disso a gente já ia pra festivais. Mas depois dele, o Brasil todo fica sabendo das datas, os coletivos divulgam, a repercussão é muito maior”.

No encerramento a Dínamo Z pegou uma platéia exausta, mas seu rock alegre veio a calhar. A veterana banda adicionou um tecladista a sua formação e fez bom negócio. Os caras têm até um hit “Mulheres do plano”, um surf rock mezzo Biquíni Cavadão, que narra a saga de um morador de cidade satélite na gana para engalfinhar uma pequena do Plano Piloto. Com essa despretensão encerrou-se mais uma noite de rock Cultcha.


Na saída meu caroneiro Alexandre “Druga” Fontenelle estava desaparecido. Telefonei pra ele e o mesmo afirmou estar dormindo no banheiro. Só cachaça. Ao encontrá-lo ele narra seu momento de deslumbre: “Entrei no box para vomitar e ao fechar a porta, ficou um breu. Abaixei a tampa do vaso, sentei e dormi, tranqüilidade total”. Não consigo pensar num depoimento mais beatificado para fechar uma resenha. Serviria até mesmo para fechar um romance. Um homem e a solitude de um box de banheiro masculino. Seu santuário no meio do caos, como um abrigo anti bomba H. Se os chinas ou o Barack resolvessem lançar uma ogiva bem ali, só o Druga e as baratas sobreviveriam. Nem Hemingway pensaria numa dessas. Então that’s all forks. O próximo evento do Coletivo Cultcha vai comemorar seu aniversário de um ano. Nascido em quatro de julho. Res ipsa loquitur.


Já está no orkut do Coletivo a sessão completa de fotos: AQUI

Um comentário:

  1. muy fuoda a resenha!

    A noite deve ter sido loca!
    Parabéns galera!

    Joao Paulo - Esquina

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