terça-feira, 8 de dezembro de 2009

RESENHA SIAMESE TWINS PARTE II



“Se radicalizarem comigo, também vou radicalizar.” – José Roberto Arruda, Governador


Texto de Michel Aleixo
Fotos de Andreia Cristinne Aguiar


E então Almirante, o que dizer das últimas semanas em Brasília? Pannetones, meias com notas de 50, um governador fajuto e mais uma vez comprovamos que somos representados por uma Câmara Legislativa mais maculada que a Bruna Surfistinha. Mas isso é outro assunto. Enquanto isso, o Coletivo Cultcha segue firme e fortalecido, obrigado. Como você leu no post abaixo, nos dias 13 e 14 de novembro aconteceu a primeira dose dupla de shows realizada por ele.

Continuando de onde o Calouro parou, os microfones sobreviveram à fúria do “de menor” Lamin e com bolsas nos olhos, a equipe Cultcha recomeça a tarefa de sísifo de prover som, luz e tietagem de qualidade para as bandas do segundo dia: Tiro Williams, Leda e o Evening, o primeiro grupo de fora do quadrilátero federal recebido pelo Coletivo.

O Tiro Williams são os primos. O show é obviamente baseado em seu primeiro disco, produzido por Gustavo Bill do High High Suicides em seu estúdio Macaco Malvado. O trabalho resenhado por Igor Silveira, do Jornal de Brasília como "um disco ensolarado, ideal para ser ouvido em uma viagem de carro, em direção ao litoral", é com o perdão do trocadilho, um “tiro” certeiro, sendo considerado por muitos um dos lançamentos mais celebrados do rock de Brasília neste ano. Ao vivo o quarteto é sucinto. Trocando de instrumentos o tempo todo e com uma Fender Jaguar que servia de televisão de cachorro para os guitarristas da platéia, os caras condensam Superguidis, Strokes e Pavement, fazendo aquele naipe de rock tido hoje como o mais moderno da praça. Pra mim, o ponto alto do show é a inspirada música Sal Paradise.


“O show foi do caralho! A gente tava desanimado porque estávamos num churrasco mais cedo, já chegamos cansados. Mas colocamos as guitarras no máximo e acho que nosso desempenho foi até inesperado”, conta Eduardo. “Não sei se foi porque a gente tava bêbado, mas foi um dos nossos melhores shows. Geralmente o pessoal fica paradão, mas aqui todo mundo agitou. – “O Cultcha está sempre de coração aberto”, eu disse. – “Tava tão bom que o cara avisou que era a saideira e eu não sabia se ele tava falando da cerva ou da música”, acrescenta o baterista Artur. A banda também representa um Coletivo: “Sim, a gente faz parte do Coletivo Esquina que é, digamos assim, o braço de Brasília do Circuito Fora do Eixo, e todo esse lance que está rolando é essencial pro cenário daqui. Não só Plano Piloto, Taguatinga também e todas as satélites”, afirma o guitarrista Moraes. “Não é só porque é rock que é só diversão. Tem que ter a parte administrativa, correr atrás, achar onde tocar, investir dinheiro em cima”, conclui.

Para o segundo round, clima melancólico no ar. O Leda está se preparando no palco para o show anunciado como a despedida do guitarrista Maurício Kozak, de mudança para Curitiba. Certamente por isso, a apresentação foi uma das mais inspiradas que já vi da banda. Fúria e feedback. Nem o baixo deixava de fazer microfonia, num kaus consonante e dissonante ao mesmo tempo. Sem falar da cereja do bolo: o wah wah do Mauricio que mais uma vez, deixou a Trompa de Eustáquio de todos os presentes com uma semana de ressaca. Antes da última música, Davi se declara para Mauricio que não contém as lágrimas e quase não consegue cantar a saideira, foi um momento doce. Imediatamente me vieram como trilha sonora, alguns versos da música Baby Come Home que acabara de ser executada: “I walk in a empty road, saying things that nobody want to hear. But I wish, I wish, you were here.”

Encontro Davi e Maurício lá fora para registrar ainda quentes, suas impressões. “Show emocionante hein!”, digo empolgado, emendando: “E aí é o fim da banda mesmo?”. Um silêncio de infinitos três segundos me faz perceber que naquele momento, o tema é desconfortável. Os dois disputam um “quem pisca primeiro” tentando ver quem consegue abdicar da resposta. Maurício cede: “Cara, a questão é que distância é sempre um problema, mas assim, tenho que encarar as coisas em Curitiba primeiro, mas por mim a banda não terminava, tem tudo a ver, as pessoas gostam da gente”. Mudo a direção do meu taco, falem do show: “O show foi ótimo, o Caju [baixista] estava encapetado. Eu quis fazer um show especial em homenagem ao Mauricio”, diz o Davi. Que se declara mais uma vez ao parceiro: “Cara o Mauricio é o mentor musical do Leda. Ele que deu a direção da banda, esse lance guitar band, shoegaze e tal, então a internet ta aí, ele pode mandar idéias, podemos mandar coisas pra ele, não tem porque terminar”. – “Ele vai levar o wah wah né, o quinto elemento da banda”, interfiro. “Sim, ele vai levar o wah wah que é a parte alta de Baby Come Home, o pedal é o George Martin do Leda”, completa Davi, arrancando gargalhadas. “Mas a gente vai continuar. É muito bom o Leda, bom demais”.

Davi precisa assumir seu ofício de operador da mesa de som e fico sozinho com o Mauricio. Digo que me lembro da reunião de criação do Cultcha, em que ele somou sua experiência em empreendimentos similares e teve naquele momento, um papel essencial no direcionamento que o Coletivo precisava. “Agradeço muito a consideração de todo mundo, a compreensão dos meus por quês e continuo achando que a idéia [coletivo] é muito boa e espero que ela se estenda para outros campos da cultura. Acho que o Cultcha pega o rock como priori agora porque é um processo de amadurecimento. Mas tenho certeza que com o gás de todo mundo, o Cultcha vai vingar e muito”, ele diz.

Lá dentro começam os acordes dos anapolinos do Evening. Subitamente, a atmosfera do Botiquim pega a BR 060 sem escalas. Estamos todos no Centro Cultural Martim Cererê, Goiânia. Não tem jeito, esses goianos têm um timbre muito característico, sem falar na tendência de cantar em inglês e soar como o rock anos 90 em seu período boreal. Deve ser o arroz com pequi, sei lá. O que vale é que o power trio soa sujo e forte, stoner do puro suco, com um baixo de muita presença. Como não podia ser diferente, a moçada delirou. Eles tocaram todo o set programado, a turma pediu bis; tocaram mais uma trinca, inclusive uma música nova, e outro pedido de bis; o jeito foi encerrar com Queens of the Stone Age e Mudhoney; só aí todo mundo se sentiu saciado.

“Primeira vez aqui no DF, melhor ainda, em Taguatinga, massa pra caralho! O público curte um som pesado, receptividade muito foda! Tocamos as nossas músicas quase todas, pediram cover, mandamos música que a gente nem toca no nosso repertório, experiência do caralho!”, resume extasiado o guitarrista Leonardo. Sobre o sotaque musical das bandas de Goiânia, o baixista Paulo acha que faz sentido: “Com certeza tem essa influência do rock goianiense mesmo, o rock da capital de Goiás. A gente gosta muito, sempre acompanhamos os festivais lá, Mechanics, MQN, Black Drawning Chalks, rola influência total!”.

Falando de negócios, pergunto como foi pegar a estrada, a recepção do Cultcha. “Anápolis é pertinho, massa demais. A galera recebeu a gente super bem”, afirma Leonardo. “A gente tem o Coletivo Pequi, estamos na rede Fora do Eixo desde maio desse ano. No Bananada sentamos com o pessoal do Cubo, do Goma, a gente pensou na criação de um circuito goiano de música independente, a exemplo do circuito mineiro, e rapidamente já estamos fechando muitas parcerias em várias cidades, hoje estamos fechando mais uma”. O guitarrista também fala dos futuros passos do Pequi: “Vamos montar um espaço em Anápolis chamado Espaço Pequi, que além de servir de sede, terá um estúdio de gravação e ensaio, lojinhas de CD e moda e especialmente, servirá como casa de shows”, acrescenta.


Depois disso, só restou desarmar a lona, o circo deixa a cidade mais uma vez. A seguir, você confere as informações do último evento do Coletivo Cultcha no ano. Em 2010, o céu não é o limite. Se uma dupla de boçais como Durval Barbosa e Joaquim Roriz fizeram todo esse estrago, o plano de ação do Cultcha vai empalar muita gente pelo caminho, pode colocar suas fichas. Cara, o próprio Marechal Rondon ficaria orgulhoso, você também vai ficar. Estamos falando de blitzkrieg pra valer, diplomata.

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