quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

RESENHA SIAMESE TWINS PARTE I


Ventos de mudanças sopram sobre a praça do DI em Taguatinga. Eles vêm de todas as partes do Centro Oeste e se encontram ali para inspirar a noite daqueles que buscam por uma experiência incomum. Logo esses ventos viram o meio de propagação de ondas distorcidas, inquietas, inconstantes, chiadas, subversivas e eletromagneticamente irregulares. Tais estímulos quando codificados pelos vários sensores espalhados pelo corpo humano, provocam as mais diversas reações extremas. São capazes de levar uma pessoa a histeria, a loucura ou até mesmo a violência. Ao mesmo tempo, há algo estranho nesse fenômeno, responsável também por conectá-las e as unir como se estivessem sob efeito de um ritual.


Texto de João Paulo Cabral
Fotos de Andreia Cristinne Aguiar


E assim aconteceu mais uma vez, durante o “Siamese Twins” nos dias 13 e 14 de Novembro, promovido pelo Coletivo Cultcha. No primeiro dia, Maurício Kozak discotecou e três bandas vindas cada uma de uma cidade do DF, invocaram fogo sobre o público em mais um ritual de ressurreição do rock de Brasília. Lacuna, a anfitriã da noite (Taguatinga), Enema Noise, o elemental do caos (Brasília) e Darshan, a boa nova das terras ermas (Sobradinho). 120 pagantes compareceram a um custo de R$7 ao Botequim Blues, que foi reformado. O novo lugar agora dispõe de três ambientes diferentes, um para a galera conversar e fumar do lado de fora, outro de jogos com sinuca (R$1.50) e fliperama (R$1.00) e o principal, onde rola o som.

Começo desta vez indo para o show em Taguatinga, no carro com o Darshan. Oliver (voz/guitarra) está nervoso, João Paulo (baixo) dirige aparentando uma calma além do normal e Thuyã (backing/guitarra) é o único que abre a boca para quebrar a tensão da viagem, gritando como uma bixona para a gente rir. Pergunto a eles se estão tranqüilos. “Não sei se é ansiedade ou nervosismo, não consigo pensar em nada. Só em chegar lá e imaginar qual vai ser o problema”, diz Oliver. “Você fala que está tranqüilo não por que está”, explica Jota Pê “mas para se tranqüilizar”. Enquanto o outro guitarrista segue pirraçando a esposa de Oliver, chamando-a de “cumadi”, Jota Pê pergunta. “Quais músicas que a gente vai tocar?”. “Qualquer uma, lá na hora a gente vê”, responde Oliver e indaga. “Por que a gente só vai tocar 30 minutos?”. “Por que a gente é de Sobradinho”, responde Jota Pê.

Assim como tantas outras do entorno, o Darshan é uma banda que não conseguiu por muito tempo, a oportunidade de tocar suas músicas em Brasília, devido à maioria das casas de show, preferir fazer shows de cover. Já que elas podem ter menos trabalho e mais lucro chamando a mesma panelinha de bandas, para fazerem dois ou três dias de show. Dois de metal e outro de alguma coisa que eles chamam de “alternativo”. Lucram em cima de bandas que se promovem em nome de outras, a maioria finada, ao invés de revelar novos talentos da cidade. Além disso, 90% das vezes, não pagam nem o trabalho que as bandas têm com transporte, muito menos com a bebida.

Após entrar em muita entrada errada e ler várias placas, finalmente chegamos ao local. É a primeira vez do grupo na cidade e já se sentem em casa, passam o som e acertam de tocarem 45 minutos. O show começou era 23h20 e o Darshan abriu com força total. Alisson (bateria) põe uns óculos à Ray Charles e ganha gritinhos da galera. Sua pegada precisa, disciplinada e leve ao mesmo tempo, fazia a bateria levitar junto aos outros instrumentos. O chiado que saia de seus pratos enchia o som e ficava onipresente durante todo show. Soava quase lisérgico em conjunto com os acordes dissonantes das guitarras e o baixo fazendo o piso das músicas. Notam-se alguns acordes de MPB, Oliver tocava sua guitarra como um violão. Ele e Thuyã fazem alguns duetos, Oliver parecia inseguro quando postava a voz nos refrões e às vezes desafinava. Mas sua voz forte e rouca não deixava explicito. Os solos de Thuyã davam o toque final nas músicas, especialmente na quase valsa, “Passos Falsos”, onde lembrou Pink Floyd.

“Foi uma novidade muito boa, eu não tinha escutado ainda. O vocal dele lembra o vocal do Silverchair, mas um lance mais grunge. O batera toca muito, ele toca parecendo natural, mas ta tocando para cacete. Eu gostei da guitarra do guitarrista, ela tem um timbre peculiar, e o baixista só curtindo o baixo da música... foi a banda perfeita para abrir hoje”, diz Davi Kaus, guitarrista da banda Vitrine. “Curiosamente pareceu Los Hermanos”, comenta Ennio Vilavelha, baixista da banda River Phoenix e responsável pela iluminação do show. “É parece sim, parece sim”, enfatiza a namorada do Davi. “É, pareceu nas músicas sem overdrive, o jeito dele cantar pareceu mesmo”, completa Davi.

Depois de ver o show, Everaldo Maximus, baixista da banda Valdez e um dos diretores do coletivo, senta com a banda para revelá-la a realidade sobre os coletivos, as panelinhas e como surgem as oportunidades de giro dentro do universo da música independente. Para ele, cada banda deve procurar fortalecer a cena de sua cidade, promovendo eventos para que ela se torne uma “referencia de troca”, para que assim, se torne mais fácil e atrativo tocar em vários lugares. “Banda que só toca, não vai para frente, a banda tem que promover alguma coisa", diz Everaldo.


Por volta de 1h da madrugada a banda caçula do coletivo, Lacuna, sobe ao palco para dar continuidade ao show. Sérgio (bateria) está vestindo uma camisa com um coração desenhado a mão, escrito “Den & Sérgio” dentro. “É em homenagem a namorada japa dele de SP”, entrega Rick, seu irmão. Saem os pratos místicos e entram os pratos recortados como queijo mordido na borda. Os dois guitarristas arrumam suas maletas repletas de pedais e depois de anunciarem os membros como em um ring de boxe, Michel Aleixo (voz/guitarra) cola uma foto do padroeiro do coletivo (o jornalista e escritor Hunter S. Thompson) no bumbo da bateria e avisa. “Eu to com a garganta inflamada, se eu cuspir sangue não é efeito especial”.

O show foi curto e grosso. A banda que tem praticamente quatro meses de vida, abriu com um cover do Mudhoney e ao todo tocaram seis músicas. Até a segunda, o som estava todo embolado, uma guitarra cobrindo a outra, a bateria distorcendo com as pancadas, a voz estourando e só o baixo se salvava. Da terceira em diante, o som melhorou e a banda fez a galera “tirar o pé do chão” com “Turnaround”, uma música intensa que explode nos refrões. A banda é pesada e barulhenta ao melhor do estilo stoner, vários tipos de distorções e efeitos são usados nos riffs, intercalados com os dois vocais gritados. O ápice chegou em “Black Dolls”, quando a garganta deu sinal vermelho, Michel parou o show, pediu água e um conhaque e agradeceu. “Obrigado pelo conhaque”. A banda terminou com uma música em homenagem a uma atriz pornô, “Sasha Grey”, de mesmo nome. O show foi um oferecimento de “Zezé de Camargoooo!!!!”, lembra Druga (voz/ guitarra), uma referência a um amigo em comum dos presentes.

“Achei boa, mas achei igual que nem todas as bandas de stoner. Não gostei da palhaçada dos dee lays, mas gostei muito das partes que pareciam com Melvins. A parte que eu mais gostei foi as partes devagar, mais enfeitadas”, comenta Vitor Gama, estudante de letras. Alguns músicos da banda também fazem parte de outras, mas apesar disso, se esforçam para deixar o som da banda perfeito para gravarem um EP. “há um mês, a gente resolveu como regra não passar uma semana sem ensaiar. Se não der no sábado, a gente faz no dia da semana”, explica Michel.

Em seguida, a trupe do Enema Noise sobe para arrumar além dos instrumentos convencionais, um computador, um sintetizador e um teclado. Todos olhavam desconfiados para o quarteto sem saber o que esperar. “Essa banda ai vai tocar emo ou rock japonês?”, ouço alguém dizer. Talvez esse tenha se surpreendido quando se viu exposto ao caos sonoro da banda, que ia do eletrônico a hinos de fúria no palco. Muitas vezes o som chiou feio, mas foi a banda que mais atiçou e agitou a galera. Lamin, uma criatura minúscula, aparentemente meiga e inofensiva berrava as músicas com toda força e energia que podia, às vezes fazia uns guturais bizarros também. ENum momento ele tira a roupa e fica só de cuequinha, pulando como uma pulga albina. Em seguida, Davi sobe no palco para cantar e também tira a roupa. Pareciam estar sendo eletrocutados em meio ao caos da apresentação. Daqui a pouco vira tradição ficar pelado nas noites do Cultcha.

“Queria dedicar essa música para a cidade, por que aqui não é Goiânia, aqui não é Brasília, aqui é Taguatinga!”, assim a banda anunciou a ultima música da noite. A última da noite foi além do convencional. Pela primeira vez este que voz fala, viu tal coisa acontecer. Lamin e Murilo (guitarra) pegarem um baixo condor, com duas cordas somente e descê-lo com toda força contra uma pedaleira até sair os pedaços e depois, espancarem o baixo e a guitarra até cansar. Quando acabou apresentação muitos ficaram chocados com o impacto sonoro e visual da apresentação, outros histéricos. “Achei legal, a musiquinha do tetris e tal, é o tipo de musica que eu escutaria jogando um jogo de corrida”, diz Jota Pê, baixista do Darshan. “Não gostei não, acho que não precisava de toda essa palhaçada, ele deve ser muito rico para ficar destruindo as coisas”, diz Larissa Mattos, estudante de direito.

Lamin estava satisfeito pela noite. Segundo ele era um desejo antigo tocar na cidade com o Enema Noise, após ter tocado em muito “lugar errado” em que as pessoas “não souberam entender a energia do show”. “É justamente por isso que estávamos falando de Taguatinga. O fato delas aqui é assistir as bandas, a gente sente falta muito disso, mas eu acho que ta melhorando”, diz. Sobre a agressividade da banda, ele explica da onde vem e revela ainda mais um plano que tinha para noite. “É uma energia que você tem que transformá-la e levá-la para o público. isso é música, isso é arte. você não tem obrigação de agradar ninguém, você tem é que levar o questionamento para as pessoas pensarem e refletirem. Então a gente busca muito esse lance do choque, do impacto e naturalmente isso acaba sendo levado pro palco, pros instrumentos e tudo mais. A gente tinha uma televisão com pornografia, mas não consegui ligar”. E a pedaleira?. “a pedaleira já era, o baixo também”.

Depois da apresentação da banda, Nugoli vai conferir os equipamentos, fala umas palavras com Lamin e volta com uma cara de sério com um microfone na mão. Pergunto o que achou da performance. “Bom, bom, bom. Ele não toca mais aqui, é de menor, fez strip-tease na minha casa e não toca mais”, ele responde sério com cara de mal. Olho para ele fixamente e ele não segura o riso. “Achei muito legal, fui lá falar com ele e ele disse que ‘no plano a gente não arranja lugar nenhum pra tocar e a gente se sentiu em casa aqui’”, diz ele. Persisto para ver se realmente não houve nenhum ponto negativo para ele. “Não, não, no palco vale tudo”, responde verificando os amassados na bola do microfone.



Em breve, a resenha da segunda noite e a sessão completa de fotos.

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