quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

RESENHA PORNOVINTAGE


Texto de Ennio Villavelha
Fotos de Andreia Cristinne Aguiar



22 de dezembro do ano de Vosso Senhor de 2009. 03:54am


“Se você não conseguir fazer com que as palavras trepem, não as masturbe”. Henry Miller

Para todo o efetivo do Coletivo Cultcha o ano foi de total inclinação ao aprendizado: como adquirir as competências específicas para poder tornar este organismo cada vez mais forte a qualquer antibiótico que queira condicionar a coceira destes cães. Seguramente cada evento se mostrou mais cheio de contornos de maturidade profissional, integrando amplamente todos os recursos possíveis para promover um nível de organização que pendesse a um clima bom para o músico e para a audiência; sem nenhuma institucionalização à terceiro setor burocratizado ou qualquer dessas palavras da moda. Ano chapa branca e neste momento abraçando uma empreitada valiosa com a agência Fora do Eixo.

Os assuntos são muito difusos entre abusos de álcool, tabaco, audição, xxxxxxxx, xxxxxxxxx, xxxxx, pequenos desgastes entre relações pessoais, hematomas e sede na madrugada. Dito isto somente para dar a devida importância a estas ordinárias e naturais atuações humanas, é saudável admitir perspectivas para aprender a lidar com o outro, consigo mesmo e trabalhar como alcatéia que se protege. São essas coisas que dispersam os nojentos-bullshit e mantém os nojentos-apaixonados que se respeitam no mesmo nível, independentemente da temperatura. Mais reflexões deixemos para as mesas de boteco.

Vamos à resenha:

Cheguei no Botequim Blues cedo em relação ao horário do show, mais de três horas antecediam ao que seria a última barulheira do ano produzida pelo Coletivo Cultcha. Alguns empregados dando os últimos retoques na bilheteria e no chiqueirinho dos fumantes, chiqueiro também daqueles que querem respirar um ar arsênico-naftalinado dos cigarros alheios. Ao lado da porta do hotel adjacente uma dama-da-noite, andando de um lado para o outro, fazendo finesses para os passantes, vestindo apenas uma tarja preta que seguia aproximadamente cinco dedos abaixo do capô e dois dedos acima dos faróis. Logo que entro encontro o engajado Alysson Diego, sentado e sozinho refletindo, um verdadeiro Pensador de Rodin, só que a mão no queixo desceu para o saco, ficamos conversando pérolas altruístas e egocêntricas enquanto a outra leva da equipe trazia alguns objetos que faltavam. Creio que é a primeira vez que chego ao local do evento e encontro o palco pré-montado, já quase totalmente encaminhado. Normalmente meus calos de relaxamento manual participam de todo o processo de montagem e passagem de som. E, já no tema, esta montagem foi um pouco trabalhosa por conta detalhes que não percebemos logo de cara. Um cabo conectado no local errado e outro não embocado bem na fêmea correspondente. Eu e Davi Kaus decifrando o pequeno emaranhado no escuro ao lado da mesa de som, nada de mais, porém causou uma perturbação. Além do pequeno choque que sofri ao religar um detalhe na iluminação. Foi gostoso igual a choque que gado toma no lombo.

Nesse meio tempo as bandas foram se aproximando, reconhecendo o ambiente. Somente a Brown-Há checou o som. A essa altura os retornos já haviam amansado, com os cabos em ordem, faltando apenas assentar o monitor individual do Dennis-Vocal-Os Inimitáveis, segundo o próprio “tem a finalidade de conter uma surdez progressiva”, faz bem.


Por volta de 00:00 a Brown-Há subiu no palco. Foram eles que apuraram os ouvidos da rapazeada para se aproximarem. Chegaram por volta de dez pessoas, que se somaram a mais dez que se somaram a tantas outras mais que estavam querendo acompanhar a ocasião. Fernando-guitarrista ostentava acima do cubo um peculiar Bart Simpson, ofuscado apenas por uma clássica Richenbaker que empunhava. O show foi rolando, percebi algumas influências evidentes, anos 70, Brit Rock, por exemplo. O que me pegou de acometimento foi o trecho de uma música: “Eu quero viver de Rock ‘n Roll!Tchan tchan tcharam tchan tchan tcharan nan!”. Entrei em paranóia delirante, por estar nessa há tanto tempo e não ganhar nenhuma balinha 7 Belo; não posso nem me dar ao luxo de “querer viver de rock n’ roll”, me contento em deixá-lo somente como ópio por enquanto. Destarte o show foi rolando, achei muito apropriado para a banda o estilo de execução do Rodrigo-baixista, dando a pulsação necessária para as ênfases nos detalhes de cada música. Foram bastante competentes, uma boa apresentação. Fez valer os comentários que já fazem na cidade.

O silêncio perdurou estranhamente por uns instantes após a apresentação da banda, por conta um detalhe técnico, até que o disc-horse-jockey Lapão da Lapônia voltasse a ajoelhar e rezar com as falanges no play, para os esqueletos rebolantes continuarem a bebericar animados. Agradável é ver sempre novos rostos nos eventos; isso torna evidente a formação de um novo gosto, diferenciado por assim dizer, e da influência do Coletivo na geografia da noite em Taguatinga. Houve até uma caravana de estudantes. Me fez lembrar do biomecânico Silvio Santos e do seu auxiliar Roque, no nosso caso o Rock, personificado no Everaldo que teve a sacada de arrastar o time pra se divertir. Troca de palco, lá estou com meus parceiros para botar a próxima banda no páreo. Não somos gênios do áudio, mas somando a gente da quase o cérebro do Jack Endino, se não der o cérebro talvez dê a glande. Mas chega de trocadilhos infames.


Os Inimitáveis estavam com um semblante de cansaço. Ficaram por ali vagando amistosamente, vendendo seu material que parte ficou no bar, disposto entre as garrafas de destilado, até serem convocados a iniciarem a tão aguardada apresentação. Sem dúvida o longo percurso Cuiabá Brasília é desgastante. No momento que antecedia o início da bagaça, baixou algum Pazuzu que certamente vagava nos anos 60 entre os músicos da Jovem Guarda. Totalmente alinhados em seus ternos, o outrora semblante de cansaço foi transfigurado em cara confiança e de satisfação por darem início show. Tocaram seu material muito divertido e sagaz. Por um momento – sem demagogia – me peguei vendo uma super banda com gosto de banda baile + Rock + Jovem Guarda+ algum outro elemento que não sei definir, mas que me fez muito bem e fez muito bem a todos os presentes. Uma unanimidade recreativa, classe A. Não vou aqui encher de lantejoulas. É só dar uma rápida procurada que se encontrará fãs lustres-ilustres da banda: Paulo Ricardo, Wander Wildner, Beto Bruno, Dinho Ouro Preto, Supla, Sérgio Mota e aquele vocalista do Bikini Cavadão. Entre “Vésperas” e “Mulheres de Cabaret”, tocaram ‘O Portão’ do grande leão domesticado, o Rei consorte Roberto Carlos. Fiquei imaginado “meu cachorro me sorrindo latindo”. Até hoje tento decifrar que porra é essa. É tão poético, lindo e tão bizarro em contrapartida, amo essa canção. Enquanto o Dennis se esganiçava no refrão, um camarada – Rick – conseguiu um óculos, o colocou no rosto e sem o tirar completamente ficava subindo e descendo entre a testa e os olhos, entre o míope turvo e o normal, feito uma peste louca, do início ao fim da música. E lembrando, ele não tem problemas na visão. Poderia certamente ser uma personagem do Monty Python. Foi um show excelente.


Após o interlúdio, sobrou a ‘responsa’ para os patrícios d’Os Dinamites, que não deixaram por menos. Chegaram rasgando. Senti falta do upright bass, o vulgo rabecão, característico de bandas Hillbilly-Rockabilly, é considerado como um membro da banda por muitos. Fostom Prison do Johnny Cash ganhou uma parceira em DCA Prison Blues, uma a alusão à Delegacia da Criança e do Adolescente, é para onde vão os malfeitores do DF que não completaram 18 anos, mas cometem crimes de igual ou maior natureza dolosa que os veteranos na área. Uma versão competente de um clássico que animou os agora já bêbados da turma da cabeceira, que continuaram abraçados. Foi bom reencontrar o Felipe Ipe Uha-baterista, um velho chapa de cervejada. Abandonou as quatro cordas, mas botou pra moer nos tambores com síncope agarrada no tempo forte, engrossando outros temas como ‘Rei do Rock’ e ‘Cowboy de Entrequadra’. Muitas bandas ao vivo dão mais frescor ao disco, e nesta referida noite foi o caso. Claro que sem denegrir o material gravado; recomendo como das melhores no segmento em Brasília.


Mais uma noitada de sucesso dos atletas sexuais do Coletivo Cultcha. Encerro aqui este breve panorama ‘highlights’ ou coisa do tipo. Aos cristãos, macumbeiros, pagãos, bichas, judeus, diplomatas, travestis, solitários, taenias, parasitas, monges, grávidas lindas e todas as outras categorias que usam a música para transcender – menos a OMB –, deixo aqui nossos cumprimentos cordiais.

Boas Festas! Rock Sempre!

8 comentários:

  1. Dennis Rodrigues ≠ INIMITÁVEIS ≠24 de dezembro de 2009 15:59

    Ennio...
    valeu pelas belissimas tesudas palavras.
    CULTCHAIADAS, nós te amamos!
    , )

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  2. Muito bom esse intercambio cultural. Da-lhe Inimitaveis.Da-lhe Coletivo Cultcha.

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  3. e assim as coisas vão andando em marés cheias de sucesso.

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  4. Excelente texto de estréia cara! Amei as ilustrações e as comparações. Agora sou realmente o único calouro =D. Vlw you Burroughs from Gotan City

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  5. Mais um resenha com a qualidade cultcha. vida longa aos inimitaveis, dinamites e cultcha!!!!!!!!!!

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  6. Gostei desse texto! Da-lhe coletivos!

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  7. hahaha muito massa seu estilo

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