segunda-feira, 6 de julho de 2009

MATÉRIA COLETIVO CULTCHA NO CORREIO BRAZILIENSE

SHOW
Todos por um


Inspirado no exemplo de Cuiabá, coletivo de bandas independentes quer movimentar o rock do Distrito Federal

• Tiago Faria





Capital do rock? Para os roqueiros do Distrito Federal, o rótulo parece cada vez mais irreal. “Quem conhece a cena de Brasília sabe que isso tudo acabou nos anos 1980. Conhece aquela história do brasiliense que não conhece o próprio vizinho? Por aqui, isso acontece também com as bandas”, resume Michel Aleixo, 30 anos. O discurso pode soar pessimista, mas o guitarrista não desanima. Além de tocar em duas bandas — River Phoenix e Lacuna —, ele acredita sinceramente que a união de forças pode remediar uma cena que já viu dias melhores.


Na teoria, a ideia é simples: quando uma banda ajuda a outra, fica mais fácil produzir shows, gravar discos e chegar à mídia. Na prática, porém, não são muitos que conseguem fazer com que essa filosofia funcione. Quando viajou em fevereiro para Cuiabá, para o festival Grito Rock, Diego Mendes, 23, achou o caminho das pedras. O vocalista e guitarrista da banda Valdez se deslumbrou com uma cena roqueira calcada nos princípios da colaboração mútua, que revelou os festejados Vanguart e Macaco Bong. “Ficamos maravilhados. Pensamos imediatamente: temos que fazer isso na nossa cidade”, lembra Diego.


Dessa descoberta nasceu o coletivo Cultcha!, que reúne seis bandas de Taguatinga em torno do objetivo de movimentar o rock brasiliense. Não é trabalho fácil. “Ainda estamos engatinhando”, reconhece Diego. Mas os projetos começam a borbulhar. A primeira iniciativa é um show marcado para hoje à noite no Botiquim Blues (Praça do DI). A estreia terá uma atração internacional: Marcos Motosierra, da banda uruguaia Motosierra, divide o palco com o High High Suicides, o Valdez e o River Phoenix. Outra rodada de apresentações rolará na quinta-feira, no Blues Pub, com Galinha Preta, Lacuna e Deluxe Jazz Fuckers.


Intercâmbio
Em carta de apresentação, o Cultcha! deixa claro que chegou para preencher as brechas de uma indústria musical em declínio e investir em intercâmbio de projetos. “A cena de Brasília é mantida nas mãos de poucos gatos pingados que preferem manter tudo na mesma”, eles avisam. E sabem do que estão falando. Sem palco ou apoio, os grupos se acostumaram a se apresentar mais para os amigos que para o público. “É muita banda para pouco espaço. A gente tocava em botequinho de beira da estrada, no meio da rua, dentro de oficina mecânica…”, enumera Diego.


É da geração do Aborto Elétrico que o coletivo toma emprestada a filosofia do “faça você mesmo”. “Fazemos a mesma coisa que eles faziam em 1979. Tocamos em troca de uma tomada em qualquer lugar”, afirma o manifesto. “Por coincidência ou não, nossas bandas são musicalmente muito parecidas. Estamos mais para o garage rock, um som pesado”, diz Michel. Numa tarde de farra no estúdio, o coletivo gravou uma coletânea de seis faixas, uma para cada banda. O disco será distribuído como brinde para as 50 primeiras pessoas que chegarem aos shows. “Não queremos vender. O disco é nosso panfleto”, afirma o vocalista da Valdez.



CULTCHA! EM AÇÃO


FESTA DE LANÇAMENTO

Hoje, às 22h, no Botiquim Blues (Praça do DI, Taguatinga). Shows de Marcos Motosierra, High High Suicides, Valdez e River Phoenix. Discotecagem de André Kalil. Ingressos a R$ 5. Não recomendado para menores de 18 anos.


A TEN O’ CLOCK SPECIAL

Quinta-feira, às 22h, no Blues Pub (Pistão Sul, Taguatinga). Shows de Galinha Preta, Lacuna e Deluxe Jazz Fuckers. Ingressos a R$ 5. Não recomendado para menores de 18 anos.


Quem é quem

Valdez
Criado em janeiro de 2004, o trio de rock garageiro, que também se inspira em clássicos como Black Sabbath. Rock ‘n’ roll simples e direto.


River Phoenix
O astro norte-americano, morto em 1993, aos 23 anos, inspirou o nome do trio, que iniciou as atividades em 1998 com gosto pelo punk e o metal. Entre as referências, Stooges e Black Sabbath. Ouça a banda em www.myspace.com/riverphoenixrock.


Lacuna
O caçula do coletivo tem poucos meses de existência e envereda pelos caminhos do stoner rock. Ainda não estreou nos palcos.


Deluxe Jazz Fuckers
Nascido no início de 2009, o quarteto toca rock à moda antiga, sem dar importância a estilos que estão em voga no underground ou nas rádios.



Leda
A praia frequentada pelo Leda é a do pós-punk oitentista e do guitar rock da década de 1990. O quarteto bebe na fonte de grupos como My Bloody Valentine, Joy Division, Pavement e Sonic Youth.


Vitrine
Criada em novembro de 2006, se influencia por rock de Brasília dos anos 1980 e pós-punk internacional. Grava o primeiro disco no estúdio Daybreak, com produção de Philippe Seabra, da Plebe Rude. Ouça em www.myspace.com/vitrinebrasilia.

Publicado originalmente na edição do Correio Braziliense do sábado, 04 de julho de 2009.

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