segunda-feira, 8 de junho de 2009

INVERSÃO DE VALORES

por Michel Aleixo

“O mundo da música é uma trincheira rasa e cruel. Um longo corredor de plástico, onde ladrões e cafetões correm soltos e homens de bem morrem como cães. Mas tem também um lado negativo.” – Hunter S. Thompson

Sempre foi ponto pacífico para os que por algum motivo se interessam pelo assunto, que os meios de comunicação são divididos por uma cortina de ferro que separa a grande mídia (omainstream) da mídia independente (alternativa, underground). Praticamente todos os grandes veículos de comunicação trabalham com uma linha editorial muito similar entre si. Ela é regida por uma intricada rede de interesses e responsabilidades, que faz com que muitas informações fiquem presas na peneira desse sistema.

Exatamente por isso, a Mídia Independente também existe. Mesmo sendo o primo pobre na divisão, carecendo assim de muitos recursos disponíveis nas grandes corporações, a Independente como o nome diz, informa sem “rabo preso”, fala o que quer. Seu alcance que sempre fora menor, cresce significativamente com o advento da internet. Tudo isso claro, em teoria.

A relação entre comunicação social e indústria musical sempre foi muito confluente. Comecei falando de uma pra depois falar da outra, porque de certa forma, a musical sempre dependeu da mídia, vivia dentro dela numa espécie de osmose. Entre os poderosos da televisão e rádio e os empresários e produtores musicais, sempre existiu um “acordo de cavalheiros”, com o objetivo de alavancar a carreira da maioria dos artistas. Tal acordo ficou conhecido no ramo como Jabá.

Essa máquina de fazer estrelas funcionou bem por décadas. Mas nos anos 90, o CD, aquele que chegava para aposentar o disco de vinil, foi o estopim da queda desse castelo de cartas. Com o CD, a indústria da pirataria teve mais facilidade em progredir, causando o primeiro tsunami no modo operante da indústria. Ainda assim, esse primeiro golpe não foi tão devastador quanto o que viria depois. A internet.

Myspace, Youtube, Trama Virtual, apenas alguns dos sites que servem de rede social entre músicos para um compartilhamento de informações e material. Esses sites foram adotados logo de cara pelos artistas que faziam seu som no subterrâneo do que acontecia no mainstream, os tais independentes. A princípio, a grande mídia foi na mesma onda dos poderosos da indústria fonográfica: simplesmente ignorou este novo formato por um bom tempo. Hoje, o mercado de discos convencionais vive a maior crise de sua história. Crise essa que começou bem antes da aterrorizante crise do crédito. Ou seja, sabe-se lá o que o futuro reserva para as grandes gravadoras.

Enquanto isso, a internet e suas redes de compartilhamento provocaram uma revolução impensada. Revolução esta que está lançando diversos artistas (Mallu Magalhães, Vanguart, citando apenas brasileiros) sem precisar da velha fórmula do Jabá. Hoje em dia, ninguém mais precisa de gravadora pomposa para chegar lá. Mallu Magalhães associou sua imagem a uma empresa de telefonia celular, e tem total controle criativo sobre seu trabalho. Tira um bom dinheiro nessa publicidade, sem contar a grana dos shows.

Coube aos reacionários se curvarem. Quando Fausto Silva anuncia que o novo quadro de seu programa chama-se Garagem do Faustão, um espaço para artistas sem gravadora mostrarem seu som, é um atestado de que os poderosos do ramo estão direcionando suas antenas para a nova maneira alternativa de agir. Por mais que tal atitude soe suspeita, está claro que as coisas estão se invertendo.

O independente hoje tem novo significado. É extremamente bem organizado, desde os festivais, ao lançamento de discos, gravadoras, e o mais importante: qualidade dos artistas. Certamente essa é a razão principal das coisas estarem andando a passos tão largos. O mais importante em tudo isso é a consciência de que, o fato da velha estrutura fonográfica estar se desmantelando, não é sinônimo de que o mercado musical está seguindo o mesmo destino. Muito pelo contrário. Abrafin (Associação Brasileira de Festivais Independentes), Creative Commons (projeto de licenças flexíveis para obras intelectuais), Trama Virtual (site que remunera qualquer banda cadastrada de acordo com o número de downloads de suas músicas), são exemplos de que o mercado musical tem um novo formato.

O Coletivo Cultcha tem como uma de suas finalidades, apresentar personagens (bandas, produtores, jornalistas, produtos) movimentadores dessa cena. Aqueles que estão readaptando o antigo sistema de escambo em um formato cultural. Todos com o objetivo em comum de fazer o Independente acontecer.

Nenhum comentário:

Postar um comentário